A menina, que fugia da educação física na escola pública e que se recusava à jogar nada além de queimada, deu uma chance para o basquete e o match aconteceu, rendendo uma relação de 14 anos e mais alguns outros esportes no caminho.

Minha história com o esporte começou num churrasco onde conheci um técnico de basquete que me convidou para fazer uma peneira. Eu era muito alta para minha idade e nem queria saber : “Ah não, prefiro vôlei!”

Não que eu era boa em vôlei, mas era um esporte mais “feminino”. Queria evitar ao máximo mais chacota, afinal, aos 14 anos, já era a menina gigante, magrela e de “cabelo ruim”. Imagina jogando um esporte “masculino”?

Com muita insistência dos meus pais, dei uma chance. Os primeiros encontros foram bem ruins. Eu era péssima, tropeçava nas linhas e nem sabia correr direito. Tinha zero coordenação e consciência corporal!

Mas dei mais uma chance para a relação! Dizem que não se conhece ninguém em um primeiro encontro e que a química acontece com o tempo. Tudo depende do momento em que estamos. Eu me abri para o basquete e o basquete se abriu para mim.

imagem: arquivo pessoal – Aline Inocêncio

Em pouco tempo, treinando muito e com muita paciência do meu pai, que me levava para treinar e pegava meu rebote, fui federada e aí tudo foi fluindo.

Joguei dois anos no COTP – Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa, e dois anos no time da Janeth Arcain, em Santo André. No meu último ano de federação, a relação ficou tensa. Não sabia para onde ir com o fim do projeto da Janeth. Queria continuar jogando, mas ainda não tinha um grande destaque em quadra, poucas bolsas para atletas e era época de vestibular ou “tensolar”.

Eu queria estudar, mas queria jogar também e sabia que não queria depender financeiramente dos meus pais. Eles queriam que eu continuasse e eu aceitei esse patrocínio com objetivo de tentar peneirar no ano seguinte. Entrei em um time amador que participava de campeonatos e jogos regionais. Esse ano eu desenvolvi muito meu basquete e também amadureci. Também passei perrengue porque não tínhamos muito apoio financeiro e treinávamos nos parques.

A yoga surgiu nesse período turbulento. Eu fazia academia num bairro da zona leste e uma professora tentou formar turma. Lembro que no final da prática eu gostei tanto da sensação de relaxar e dar um tempo em toda a turbulência, que queria que mais gente tivesse acesso e pensei: “Quero dar aula disso!”

imagem: arquivo pessoal – Aline Inocêncio

Pesquisei e não era nada viável financeiramente para mim na época. A turma de yoga não vingou, continuei com o basquete, no ano seguinte joguei no adulto e consegui uma bolsa de estudos. Escolhi fazer educação física, não que eu amasse, mas sabia que teria mais facilidade de entrar no mercado de trabalho por conhecer bastante gente e foi assim que consegui meu primeiro trampo e estágio.

O meu primeiro estágio foi em um projeto social onde um dos esportes era basquete. Era um desafio diário mostrar outro esporte além do futebol para as crianças e trazer as meninas para o esporte.

imagem: arquivo pessoal – Aline Inocêncio

Mais tarde em outro estágio, no Sesc, tive a oportunidade de trabalhar com outros esportes e faixas etárias. Tinha basquete com adolescentes e adultos, e os professores faziam questão que eu os acompanhasse nas aulas tanto para incentivar as meninas, quanto para aprender a trabalhar com basquete.

Nesse período, conheci o Rachão Basquete feminino, onde tive acesso ao basquete lazer, que eu diria que é meu terceiro crush, rs. Eu me divertia jogando, mas a competição era muito mais exaltada. No Rachão, o que estava em evidência era a resistência de mulheres e meninas para jogarem em quadras dominadas pelos caras.

imagem: arquivo pessoal – Aline Inocêncio

Nós íamos nas quadras e fazíamos questão de jogar apenas com mulheres, independente do nível de basquete. Mais tarde, integrei a organização e aprendi muito. Éramos em 5 mulheres negras compartilhando do mesmo desejo e cada uma com suas particularidades e experiências.Tenho muito a agradecer cada uma, e as minas que comparecem nos encontros. Depois que comecei a frequentar, me senti muito fortalecida e sabia que quando me posicionasse em qualquer espaço que eu estivesse, não estaria só!

Eu e o basquete tínhamos um relacionamento bem estável, mas eu sentia falta de algo a mais, um temperinho na relação, saca? E sabendo que Yoga estava na grade de aulas do Sesc, logo dei um jeito de acompanhar a professora para retomar o crush de um encontro.

Foi aí que voltamos e, mesmo formada, frequentava as aulas de Yoga e logo em seguida basquete duas vezes por semana. Eu tinha acabado de me formar, já trabalhava na minha área, dando aulas de treinamento funcional e me virava nos 30 para continuar nessa rotina, mesmo morando longe do trabalho e do Sesc.

Percebi que nesse período essas duas relações me ajudavam, uma completava a outra. Eu saía da aula da yoga revigorada e entrava no basquete muito mais consciente e com mais paciência para enfrentar toda a testosterona dos meus colegas. Algumas vezes, eu me aprofundava tanto na Yoga, que  precisava dar um tempo para não levar bolada na cara quando entrava no basquete – fica aqui a dica de dar um tempinho entre as práticas – kkk.

Depois de juntar uma grana, consegui fazer o curso de formação de Hatha Yoga. Me aprofundei no estudo da filosofia e, após um ano, comecei a dar aulas e continuei praticando.

Com a pandemia, pela primeira vez na vida de basquete, precisei dar um tempo. Sinto falta da quadra, das amigas e dos torneios. Como a nossa relação é bem aberta e a Yoga é bem de boa, experimentei esportes individuais. Retomei um crush antigo com a corrida, nos vemos toda semana, retomei uma vontade de me desafiar na escalada e agora tô me desafiando no pole dance. Nossos encontros são esporádicos, mas sempre surpreendentes e de tirar o fôlego. Ando também fazendo uma leve amizade colorida com futevôlei, esportes de chutar nunca foram tão favoritos, mas até que tá indo.

Eu sinto a Yoga presente em todos os esportes, não só pelo condicionamento físico mas principalmente pelo elo entre ouvir e me permitir sentir cada esporte e cada momento que presencio.

Acredito que as relações são espelhos que nos mostram o que precisamos enxergar em nós mesmas. Se encararmos o esporte ou qualquer outra atividade corporal, como a yoga ou dança, como uma relação, logo teremos um espelho que pode nos permitir a nos conhecer melhor e consequentemente sermos melhores nas nossas relações com o mundo e com quem vive nele.

Aline Inocencio da Silva, formada em Educação Física, licenciatura e bacharelado, atuo como Personal trainer com aulas de funcional,musculação e pilates e sou professora de Hatha yoga.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

You May Also Like
Leia mais

CELEBRE SUAS MICROVITÓRIAS

Se tem uma coisa que pedalar ensina é que todo dia você tem uma microvitória. E isso em tempos tão estranhos, é algo para se comemorar, e muito. O esporte faz a gente se comparar com a gente mesmo o tempo todo e essa evolução requer esforço e autocuidado. Quando conseguimos é preciso celebrar.
Leia mais

DISCIPLINA NA ROTINA

Muitas vezes pacientes e amigos me perguntam: - Van, como você consegue fazer tanta coisa num dia só? Pedala, atende, pilates. A resposta é sempre a mesma: ROTINA E DISCIPLINA. Rotina não tem nada a ver com monotonia, é a organização do seu dia, para que você consiga fazer tudo o que se propõe a fazer. Disciplina é a capacidade de seguir determinada coisa, independente das adversidades.
Leia mais

O SONHO É GIGANTE, MAS MINHA INTENÇÃO É MAIOR AINDA.

O meu sonho e propósito nesta jornada é gerar caminhos sustentáveis para qualidade de vida e prosperidade às pessoas que vivem na periferia, gerar conscientização ambiental, posicionamento critico e amplo sobre as possibilidades da vida. Que toda criança periférica tenha acesso às artes, esportes, filosofia, tecnologia e principalmente desenvolvam confiança e auto-promoção.