“O presente mais legal que você pode ganhar nessa sua nova fase é uma bicicleta”. Foi essa frase que ouvi, há uns 13 anos mais ou menos, da minha ex-chefe, e hoje melhor amiga, enquanto recebia – incrédula – dos amigos do trabalho, aquela caixa enorme. Eu tinha só 22 anos, estava saindo de casa pra morar sozinha e esse gesto mudou tudo. 

Sempre fui apaixonada por pedalar, mas cresci numa região perigosa e de difícil acesso pra colocar essa paixão em prática. Infelizmente, em grandes cidades, pedalar pode ser caro e perigoso. Se as cidades não foram pensadas para a bike, imaginem as favelas? Eu olhava aquela vida Manoel Carlos na televisão e achava que nunca saberia o que seria a sensação de acordar, pegar a bicicleta e ver o mar. A prática de esportes para além do futebol, ainda é, em muitos aspectos, elitista e pouco estimulada. Mas essa pauta, não menos importante, fica para outro texto. Hoje, o foco é sobre acessos possíveis e mudanças viáveis – de cabeça, vida e corpo. 

A partir daquele dia, eu mudava para casinha de vila que tinha 3 colchonetes de camping, um surdo, um fogão, um isopor e uma bicicleta. E, com esses itens mais emocionais do que funcionais, começaram os primeiros meses mais felizes de uma nova vida. Lembro o dia que cheguei pedalando até o Leme pela primeira vez: chorei. Nessa novela da vida real acho que eu não faria parte do elenco nobre, mas seria, sem dúvida, o mais divertido. 

A bike virou minha companheira para absolutamente tudo: trabalho, festas e até nas viagens ela assumiu um lugar especial. Passei a conhecer as cidades sempre de bicicleta. Era obrigatório reservar alguns dias pra isso, foi assim no Atacama, em Praga, São Francisco, Berlim e mais umas 10 cidades. O mundo se apresentava para aquela menina que saía da Zona Norte do Rio, agora por outra perspectiva. Até tatuagem eu fiz. Pedalar virou sinônimo de liberdade e acesso, privilégio conquistado e muito celebrado. Era menos sobre o esporte e mais sobre o coração.

imagem: arquivo pessoal/Barbara Bono

A vida andou, mas infelizmente, pedalando menos. A jovem apaixonada foi dando espaço para a executiva entulhada de trabalho, de compromissos, de demandas, de cobranças e todas as convenções sociais que vão nos colocando – e nós também colocamos – em cima das nossas paixões. Acredito que para as mulheres em cargos de liderança ainda seja mais difícil conciliar determinados aspectos. Dar limite para ter o nosso espaço não é fácil. Vai ser no horário para pedalar? Para ensaiar num bloco de carnaval?

Mudei de emprego algumas vezes, cada vez para mais longe, mudei de cidade. Aí o abandono foi geral, tentei me adaptar aos pedais em São Paulo, mas não consegui. Sempre faltava tempo, sobrava frio e muitas desculpas. Não foi só a bike que se perdeu ao longo desse processo. Sinto que também estava me perdendo de mim em muitos aspectos. Precisou de um Burnout, pane no sistema geral e a depressão batendo na porta para entender que as paixões não podem ficar pra depois.

Seja qual for a sua. Não ser dona da sua agenda só abre caminho para uma falsa sensação de importância, quando vital mesmo é o tempo que priorizamos pra gente. Nem que pra isso ele também precise ser marcado na agenda como um compromisso consigo mesma.

Até que, 13 anos depois, a vida me colocava de novo em uma nova fase de reviravoltas. Pedi demissão em janeiro, mil mudanças de planos e rotas e veio a pandemia. Depois de intensos meses de surto (quem não?), era hora de reconectar com o que fazia sentido. Malas prontas, um período de moradia fora da cidade grande e lembrei do “melhor presente que eu poderia me dar” e “ver a vida sobre outra perspectiva”. Comprei uma bicicleta nova. Voltei devagar, com muita dificuldade e a cada km a mais era uma microvitória a ser comemorada. Não pelo corpo, que também estava precisando, mas pela minha saúde geral. Poder sentir de novo a sensação de chegar onde a cabeça da gente acha que não consegue é um paralelo pra tudo na vida. 

Se tem uma coisa que pedalar ensina é que todo dia você tem uma microvitória. E isso em tempos tão estranhos, é algo para se comemorar, e muito. O esporte faz a gente se comparar com a gente mesmo o tempo todo e essa evolução requer esforço e autocuidado. Quando conseguimos é preciso celebrar. 

Em tempos difíceis, se conectar com suas microvitórias é estar vivo. 

Deixo aqui os registros das minhas últimas celebradas, incluindo a cerveja no bar do lado de casa depois de 42km incluindo subidas e estrada de terra. 

imagem: arquivo pessoal/Barbara Bono
imagem: arquivo pessoal/Barbara Bono
imagem: arquivo pessoal/Barbara Bono

Bárbara Bono é comunicadora, empreendedora em negócios da industria criativa e conteúdo, ciclista amadora e percussionista de blocos de carnaval,

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