Explicar a alguém como eu comecei a correr é sempre uma tarefa complicada, sobretudo porque me falta o poder da síntese. Comecei porque quis, mas também porque precisava. Passei uma vida inteira associando atividade física a emagrecimento, perturbada por transtornos alimentares que nunca me permitiram ver nada no esporte além de um atalho para atingir um corpo ideal (o que nunca aconteceu, porque o ideal não existe). 

Com 26 anos, cheguei ao fundo do poço. Havia acabado de perder minha mãe para um câncer e, com ela, o rumo, além de muitos quilos. Estava deprimida e me sentia impotente. O sonho de estudar para me tornar juíza, interrompido pelos anos na função de cuidadora, parecia nem existir mais. Eu precisava fazer alguma coisa – mas não sabia nem o que fazer comigo mesma. Um belo dia, na academia, simplesmente comecei a correr.

Sempre gosto de fazer uma pausa dramática aqui para dizer que eu odiava correr. Talvez por sempre ter me preocupado demais com as calorias, ou por nunca ter persistido. A primeira vez que tentei correr 1km inteiro desisti e chorei. Senti que aquilo simplesmente não era pra mim, para o meu biotipo, ou capacidade. Mas, nesse dia, algo diferente despertou em mim. It was awful tasting medicine, but I guess the patient needed it. Em outras palavras: algo naquela derrota me fez querer tentar de novo. E eu tentei.

Dali em diante minha vida mudou. Existe um fator muito viciante na corrida amadora, que é justamente a vontade de se superar um pouco mais a cada dia. Sem olhar pros lados. Apenas você com você, quebrando seus próprios paradigmas a seu respeito. A sensação do primeiro quilômetro completo é a mesma dos primeiros 5, 10, 15, 21… e eu queria mais. Cada objetivo alcançado na corrida me obrigava a olhar com mais carinho pra mim mesma. Para o corpo que sempre maltratei. Para os planos de vida emperrados pelo medo de não dar conta do recado. E se eu empregasse aquela mesma força fora do asfalto? Aonde poderia chegar?

imagem: arquivo pessoal/Rafa Callil

Como boa metáfora da vida, a corrida me forçou a olhar pra frente. Paralelamente às medalhas, ganhei a capacidade de ressignificar o que pensava a meu respeito. Se eu era capaz de fazer algo tão difícil quanto correr por horas, como não seria capaz de prosseguir rumo aos meus objetivos? Corrida de longa distância exige resistência, persistência e determinação, três ingredientes que viriam bem a calhar em qualquer momento da vida, mas foram essenciais para que eu não desistisse de mim mesma num período em que a prostração e insegurança teimavam em querer me agarrar.

Totalmente impulsionada pelo runners’ high e pela sensação de possibilidade que a corrida me trazia, fui retomando aos poucos os estudos e outras coisas que havia deixado para trás. Me tornar uma melhor corredora se tornou tão importante quanto me tornar uma melhor advogada e candidata ao concurso que queria. Uma coisa não existia sem a outra. Caminhavam juntas. Ou corriam, com o perdão do trocadilho. 

Quando a gente fala de autoestima, imediatamente pensamos no físico. É automático. Mas, por mais que a corrida tenha me dado uma justificativa infalível para amar meu corpo (duvido você correr e não se sentir incrível), ela me deu muito mais do que isso. Me trouxe de volta pra mim, pra aquela menina destemida que se achava capaz de qualquer coisa. Me ensinou que, com uma boa dose de dedicação e equilíbrio, eu era, sim, capaz de conquistar minhas metas. 

Em junho deste ano completei minha primeira maratona, a convite da adidas. Tive a honra de participar de um projeto cujo principal objetivo era mostrar para outras mulheres o poder de transformação da corrida, uma bandeira que tem tudo a ver com o que busco defender. 

imagem: arquivo pessoal/Rafa Callil

Independentemente do seu peso, velocidade ou distância, a corrida pode se tornar o fio condutor da sua força, característica inerente ao sexo feminino, mas que muitas vezes não sabemos acessar. Mulher forte pra mim é redundância, mas a corrida torna isso palpável. Hoje costumo brincar que este é o tamanho da minha força: quarenta e dois quilômetros. E, se eu, uma pessoa absolutamente normal, era capaz de completá-los, por que você não poderia? Acredite – todas temos isso dentro de nós. 

Correr uma maratona me ensinou muitas coisas, mas a que eu mais aprecio (e tento propagar) é a percepção de que meus sonhos são possíveis. De que eu sou possível. O esporte pode ser a engrenagem das nossas histórias, a ferramenta que usamos para nos alavancar e chegar lugares que não imaginávamos. Isso é autoestima pra mim. Não os músculos da minha perna ou o tempo no meu relógio. É a capacidade de mudar vidas inspirando e celebrando nossos corpos, a começar pela minha.

Se pararmos para analisar, o esporte subverte a pressão estética à qual todas estamos submetidas. Desafia a crença de que somos o sexo frágil. Nos obriga a colocar limite nas jornadas triplas que nos impõem. Nos força a pleitear igualdade. Gera representatividade e cria um senso de comunidade, estabelecendo conexão entre as mulheres. Num mundo em que nos querem fracas, encontrar a nossa força através do esporte é um ato político. E amar a si própria pode ser tão simples quanto calçar um par de tênis, dia após dia.

Termino este texto dizendo que ainda estou correndo atrás dos meus sonhos, dentro e fora do asfalto. Não sei quanto tempo vou levar até atingi-los, mas, assim como na corrida de longa distância, tenho dado mais atenção ao caminho do que à linha de chegada. Afinal ele quem me trouxe até aqui. 

1 comment
  1. Boa tarde!
    Me identifiquei muito com este depoimento, pois a corrida vem trabalhando cada vez mais minha autoestima.
    A estética é importante para mim, mas o trabalho interno não tem comparação.
    Parabéns pela matéria!
    Obs: se possível gostaria de ter o contato da corredora para trocarmos experiências.
    Suzy

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