Eu sou Aretha Duarte, 36 anos, a caçula de três filhos de pais pernambucanos que vieram viver em São Paulo há mais de 40 anos. Minha mãe é viúva há 13 anos e me ajudou desde pequena a ter uma mentalidade empreendedora, que sempre vislumbrou resultados positivos e oportunidades mesmo quando as condições das nossas vidas não estavam tão favoráveis. 

Eu tive uma infância sensacional se considerar família estruturada, provisão alimentar, garantia de amigos e sociabilização, bem como acesso à escola pública, onde eu podia praticar esportes mesmo em grupos mistos, pois em algumas modalidades não haviam muitas meninas interessadas. Eu amava jogar futebol e isso me levou a pensar taticamente a minha vida e ganhar forças para parar ataques. 

Na pré-adolescência eu fui convidada para jogar futebol com o Clube Ponte Preta, tradicional na cidade de Campinas – SP.

Até o inicio da minha adolescência eu tinha certeza que minha vida era um paraíso, não percebia carência de nada, mas a minha mãe possibilitou eu enxergar um novo caminho. Ela me fez pensar em estudar em uma escola fora da periferia, era o Ensino Médio técnico em Processamento de Dados. Eu me lembro que não consegui ingressar em escola pública por não alcançar nota mínima adequada para concorrer às poucas vagas disponíveis, no entanto, consegui uma bolsa de estudos na escola particular por conta da baixa renda per capita da minha família. 

O meu primeiro ano no Ensino Médio fora muito difícil, pois eu estava em um nível escolar abaixo dos demais alunos, no entanto com esforço e dedicação no meu segundo ano eu já recebia as melhores notas. 

Foi durante o Ensino Médio que comecei a pensar em Faculdade, como deve ser para a maioria dos jovens, a minha maior dificuldade foi escolher o curso, estava dividida ente qualquer curso de engenharia, como por exemplo Engenharia da Produção, em relação a algo relacionado à Licenciatura. Mas, em pouco tempo eu pude reconhecer minha vocação para a Educação, então escolhi um curso que, na minha opinião, tinha muito poder e ferramentas para transformar vidas. Escolhi a Educação Física, com a certeza que passaria o resto da minha vida atuando em escolas. 

Ingressei o Curso de Educação Física da PUC – Campinas em 2004. No meu segundo ano tive a grata oportunidade de conhecer a Grade6, uma operadora de montanhismo. O professor Beto foi quem apresentou. Durante a palestra da Grade6 fiquei empolgadíssima e comecei a vislumbrar uma vaga de emprego naquele segmento. 

Em 2005 comecei a me aproximar da Grade6, eu tinha interesse em trabalhar com eles, então realizei alguns cursos até que passei a trabalhar para a Grade6 em eventos corporativos em 2007. Mas, se tratava de um trabalho free lance. Já em 2011 fui convidada a ingressar o quadro de funcionários da empresa e finalmente passei a realizar tudo o que eu mais queria: estar em campo, ir à montanha. 

imagem reprodução/instagram

Há 09 anos tenho praticado escalada, trekking e expedições nacionais e internacionais. Em alta montanha vou de uma a duas vezes por ano. Escalei na Argentina, Bolívia, Equador, Nepal, Venezuela, Tanzânia e Russia. Mas, nunca havia pensado em escalara o Everest, acreditava que a busca pela mais alta montanha do planeta exigia alto risco de vida e busca de status quo. Mas, tudo mudo em dezembro de 2019 quando eu vi uma foto do Vale do Silêncio (6.100 m a 6.400 do Everest) no arquivo pessoal do Carlos Santalena, sócio e guia da Grade6, e também meu amigo.

A foto do Vale do Silêncio me deu nova perspectiva da montanha, foi a primeira vez que senti um desejo ardente de participar da Expedição Everest. 

Em março deste ano eu estaria novamente no Nepal para guiar um grupo de trekkers ao Everest Base Camp, mas no dia do embarque as fronteiras do país foram fechadas e a viagem cancelada. Neste dia, determinei que na minha próxima oportunidade de estar no Nepal seria para escalar mais alto que o Base Camp, eu iria ao topo, no entanto, logo entendi que seria extremamente desafiador pelas questões financeiras. 

Para escalar o Everest é necessário cumprir pelo menos 5 passos básicos:

  • Adquirir excelente condicionamento físico;
  • Conhecer escalada em rocha;
  • Conhecer escalada em gelo;
  • Adquirir experiencia em alta montanha;
  • Ter escalado uma montanha de 7 a 8 mil metros de altitude 

Em abril de 2020 ativei o projeto Aretha No Everest que prevê a minha escalada Everest em 2021 através de recursos financeiros oriundos principalmente da reciclagem de materiais, mas o principal objetivo deste projeto é promover ações sociais que inspirem mais pessoas a conquistarem seus sonhos. 

É tão claro que já tive diversas conquistas ao longo da minha vida, sou realizada nas diversas áreas, mas sempre estive incomodada com a situação e falta de perspectivas dos moradores da periferia onde moro. Sempre interpretei que tive acesso a alguns benefícios que não estão disponíveis para todas as pessoas periféricas. Faltam oportunidades aqui.  

O projeto Aretha No Everest desenvolveu em mim uma força inestimável que me convence todos os dias de que tenho uma missão dentro do projeto: fazer desta ascensão o pano de fundo para gerar conquista e impacto social. 

O meu sonho e propósito nesta jornada é gerar caminhos sustentáveis para qualidade de vida e prosperidade às pessoas que vivem na periferia, gerar conscientização ambiental, posicionamento critico e amplo sobre as possibilidades da vida. Que toda criança periférica tenha acesso às artes, esportes, filosofia, tecnologia e principalmente desenvolvam confiança e auto-promoção. 

Recebi muitos livros pelo projeto Aretha No Everest, estes ficarão disponíveis na Biblioteca Comunitária, no mesmo local, teremos uma parede de escalada e outras modalidades para o desenvolvimento humano, mas essa é apenas uma parte de tudo o que estou projetando.

O ano de 2021 é o ano que escolhi para ativar de forma sistêmica mudança nesta estrutura de desigualdades das periferias, meios sustentáveis farão parte da vida de todas as pessoas do Brasil. A jornada é dura, o problema é complexo, mas nós, mulheres, temos condição de lidar com soluções para cada caso. 

O Sonho é Gigante, mas minha intenção é maior ainda.

Vai dar certo!

imagem reprodução/instagram

Aretha é montanhista, guia na empresa Grade6 e idealizadora do projeto #ArethanoEverest.

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