Caminho. Caminho. Caminho. Caminho sobre o caminho em que caminho. Caminho em caminhos em que outros caminhantes caminharam. 

O looping intenso de pensamentos me acompanha juntamente com o som dos passos ritmados pela minha respiração. Em altitude o ar é mais leve, menos denso, menos barulhento e acho que é assim para se equilibrar com a profundidade do mergulho que damos para dentro de nós mesmas. 

Acho que os anos que passei dentro de salas de dança acabaram me condicionando a contagens em oito tempos. Me perco em mim e quando retomo a atenção, minha mente está calmamente contando meus passos até oito e recomeçando de novo. Ininterruptamente. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, um, dois…

Imagem: arquivo pessoal/Ayesha Zangaro

Já me peguei nisso por mais de uma hora, ou talvez duas, não sei. O tempo na montanha é outro, a natureza rege as horas de outra forma, que me parece inclusive muito mais sábia do que a nossa, condicionada por relógios e celulares. Desligo. Mas aqui, sem apertar botões. Deixo meu corpo ouvir meu coração bombear o sangue, deixo minha mente em modo avião, minha pele atenta, meus músculos ativos… e em algum lugar, talvez num plano etéreo, minha alma absorve a experiência de apenas ser e estar. 

E depois… o susto. Depois de terminar o percurso planejado para o dia, recobro instantaneamente meu modus operandi condicionado pela sociedade. Retomo a ilusão do controle sobre meus próprios pensamentos, volto a alimentar olhos e ouvidos com infinitos estímulos externos, silencio o instinto, envelopo o sentir, anestesio o fluxo de sensações, e por algumas horas, volto a acreditar que é assim mesmo, que isso que é a vida, encher o tempo de ocupações até algo me surpreender. 

Porém… cada vez menos. A cada dia que passo em contato com a natureza, os momentos de escape e conexão se tornam mais longos e a consciência do agora se estende com mais intensidade pela minha existência. Trazer essa meditação ativa para a nossa rotina é tão transformador que às vezes perdemos a capacidade de entender esse movimento racionalmente. E aí só nos resta sentir… e existir. 

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O que eu mais gosto como jornalista é contar histórias. Melhor ainda é poder se inspirar de alguma forma com essas histórias. Eleita melhor do mundo pela FINA seis vezes (!) e muito longe de receber o reconhecimento que deve pela mulher incansável que é: Ana Marcela Cunha é braba.