Não basta ser apaixonada por esportes, é preciso ter um bocado de paciência e estômago forte para acompanhar alguns desdobramentos.

Se na semana passada escrevi sobre Naomi Osaka e sua representatividade como atleta, hoje, depois de alguns dias longe desse espaço, volto para escrever sobre Carolina Salgado Solberg, jogadora de vôlei de praia profissional, que no último final de semana protestou contra o atual presidente do Brasil, Jair Bolsonaro.

Seria o esporte um território neutro para a política?

Deixa eu te contar o que já não é novidade: tudo é política. Todas as nossas escolhas envolvem política. Viver é um ato político, portanto, ser atleta também é um ato político. Quando se escolhe o esporte como caminho, o repertório como um todo muda, valores, ideologias e coletivamente, até estruturas sociais.

Se o esporte ainda é aquele potente agente transformador deveria fazer o mínimo para manter pluralidade, diversidade, democracia, entre outros pilares que lhe cabem. É a partir daí que podemos trazer a meritocracia para mesa. Mas se tratando de Brasil, o diálogo – ou debate, sobre esporte muda consideravelmente.

Na nossa amada pátria existem alguns (muitos) abismos sociais, mas não é só isso. O Brasil não é um país que gosta de esporte, o Brasil gosta mesmo é de medalhas e vitórias. Por aqui, quase ninguém se importa com trajetória. Você só é bom se você ganha. Como se uma única vitória fosse aceitável. Não somos apaixonados por esportes, somos, no máximo, audiência sem senso crítico.

Valorizamos ligas internacionais de uma maneira muito diferente das ligas nacionais. A real é que o patriotismo deixa de existir quando o produto é nacional – isso aqui também é política, principalmente porque vivemos um momento de crescente no nacionalismo, e que muitos confundem com patriotismo. O que tem de brasileiro aplaudindo atleta gringo quando se posiciona, mas quando algum brasileiro faz isso reage com o já batido, “tá querendo aparecer”, não tá escrito!

Um atleta se posicionar politicamente em determinadas situações, é, antes de mais nada seu direito como cidadão. Sempre bom lembrar que se posicionar é diferente de militar! O problema novamente está no brasileiro, que tem na política, bem como no futebol, paixão avassaladora por figurões duvidosos. Não temos maturidade para debater política, quiçá, cobrar ou pressionar o governo sobre algo. Endeusamos políticos cultivando muito apresso a quem deveria servir – minimamente – a população. Escolhemos outros lados, e não o nosso, como cidadãos.

O gigante não acordou e provavelmente não vai acordar tão cedo, porque ainda estamos preocupados com ideologias, e não em promover o progresso – de verdade.

O #forabolsonaro dito por Carol Solberg depois de ganhar o bronze na etapa de Saquarema do Circuito Brasileiro de Vôlei de Praia, foi o grito de muitos e a revolta de outros tantos. O protesto, legítimo, foi repudiado pela CBV, Confederação Brasileira de Vôlei, em “nota oficial” que ora, ora, NUNCA repudiou nenhum atleta do vôlei masculino por apoiar o atual presidente quando ainda era candidato ao cargo.

(Não era o esporte que tem entre os seus tanto pilares o jogo justo? Talvez no vôlei seja diferente – contém ironia).

imagem: reprodução/instagram

O esporte nunca foi, e nem nunca será um território tão “neutro” assim. Não quando os torneiros são patrocinados pelo Banco do Brasil, instituição financeira brasileira que pertence 50% ao governo federal e 50% a acionistas. Vale lembrar que o banco, bem como empresas estatais, não pertencem ao Presidente da República.

Melhor parar por aqui, o esporte brasileiro ainda não está preparado para conversar sobre política, tão pouco sobre gestão, branding e projetos envolvendo patrocínio. Quem sabe um dia, o Brasil copie os Estados Unidos no esporte, ganhando assim o profissionalismo e seriedade que merece.

Eu não comecei escrevendo que o esporte exigia paciência? Pois então… haja!

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