Na semana passada o treino da herdeira viralizou e abriu caminho para uma lista imensa de outros questionamentos que tenho, entre eles, a maternidade.

Ainda não sou mãe, mas sempre penso que, quando for, como vai ser maternar e praticar meus esportes? Assim, no plural.

Do alto dos meus privilégios, tenho não só acesso, mas a oportunidade de praticar mais de um esporte. Na minha privilegiada bolha tem mães esportistas incríveis! Dos mais diversos esportes, surfe, escalada, triatlon, corrida, montanha, natação, sup, mas, sempre o “mas”… uma boa parte dessas mães que conheço tem um pouco de consciência dos seus privilégios. Tem também uma estrutura mínima e rede de apoio para incluir o esporte e a atividade física na rotina.

Nem sempre é assim. Novamente o “esforço”, a “falta da força de vontade”, o “quem quer dar um jeito” entram em cena. Será mesmo que nessa narrativa, o esporte é para mães?

Imagem: reprodução/instagram – Bethany Hamilton

Não preciso ser mãe para ter esse lugar de fala. Eu, como mulher, privilegiada e esportista digo com absoluta certeza: não é. Até pouco tempo atrás o esporte nem “coisa de mulher” era, imagina se vai ser facilmente considerado “coisa de mãe”. Não vai. Quer dizer, não vamos ver essa mudança acontecendo tão cedo.

No alto rendimento nos acostumamos a ver atletas se “aposentando” para viverem a maternidade. Quando não acontece a aposentadoria e sim o retorno ao esporte, a sociedade como um todo questiona se essa mesma atleta vai voltar em plena forma a competir. Quando não questionam sobre a criação do filho, corpo, estilo de vida…

Mulheres que vivem o esporte amador sempre são questionadas sobre as crianças: com quem elas ficam? Já comeram? Que horas você volta para cuidar do(s) filho(s)? Ou qualquer coisa coisa que a coloque em seu devido lugar, no caso, o de mãe. E só.

Mulheres que vez ou outra praticam alguma atividade física além do peso das perguntas ai de cima, são julgadas por se permitirem sair para se movimentar. Existe ainda as mulheres que nem movimentar o corpo podem, a rotina não permite. É a maternidade solo, a tripla jornada, a falta da rede de apoio, o bairro que não é seguro e principalmente, tem como prioridade sobreviver e proteger (como pode) os seus.

A falácia do “você também pode” no esporte atinge as mães em cheio. Camufladas de “ela sempre tem uma desculpa”, mulheres que são mães e que gostariam de praticar atividade física ou algum esporte são jogadas para debaixo do tapete, como se o lugar delas fosse lá.

E não, não é.

Se o esporte é aquela ferramenta social que todo mundo enche o peito para falar que é, então também é o lugar da mulher-mãe. A mãe que precisa de apoio, acolhimento, diversão, respiro, identidade, empoderamento…

Mesmo dentro de uma bolha de privilégios, mulheres que são mães buscam um respiro em meio ao turbilhão que é a maternidade. Ao escrever essa frase, volto para 2014/2015, quando conheci a educadora física Joana Magalhães e o seu então projeto, Cardiocore. Um dos grupos atendidos por Joana na época eram mães que queriam voltar para atividade física e que durante o treino poderiam levar seu bebê. Joana na época era minha personal e os relatos sobre esse grupo me arrepiava, apesar de me faltar maturidade para entender o tamanho real deste trabalho. Joana plantou uma sementinha…

Olha eu aqui, escrevendo esse texto, alguns anos depois.

Mesmo ainda não sendo mãe, gosto de olhar o mundo como se eu fosse. Um processo que me ajuda bastante a pensar, como editora do Esportes Dela, qual é a chave que eu posso virar e tornar o esporte/atividade física um lugar mais acolhedor. Um processo que me ajuda bastante a questionar o mundo que vivo. Um processo que ajudaria bastante outras mulheres que julgam e apontam. E principalmente, homens que precisam participar dessa conversa…

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