Uma curta cronologia sobre Josiane Lima, mulher que trouxe medalha inédita ao remo brasileiro

Josiane Lima durante Sul-Americano. Foto: CBR

Ícone do remo brasileiro, Josiane Lima fará de Paris 2024 sua quinta participação nos Jogos Paralímpicos. A “navegante”, como costuma se dirigir aos fãs em suas redes sociais, trouxe ao Brasil a primeira medalha na modalidade em Pequim 2008, um bronze conquistado ao lado de Elton Santana. Agora o grande sonho da atleta é subir novamente no pódio, além de estimular uma participação ainda maior de mulheres e auxiliar na inclusão de pessoas com deficiência. Com 16 anos de experiência no remo, Lima compete no double skiff misto PR2 e também no single skiff PR1. 

A preparação para Paris inclui cumprir diversos testes exigidos pela Confederação Brasileira de Remo (CBR), seletivas e competições nacionais, porém a primeira chance de assegurar a vaga no maior palco paralímpico do planeta só virá no Campeonato Mundial de 2023. Nascida e criada perto do mar em Santa Catarina, a atleta se mantém invicta no país desde 2006, enquanto representa o Clube de Regatas Aldo Luz, de Florianópolis. Mesmo ao disputar com equipes do Flamengo, que possuem maior força política e estrutural, e sem o suporte que os adversários recebem, Lima continua como a número um. Este ano ela já carimbou mais um ouro no Sul-Americano de Remo junto da dupla Leandro Sagaz e o próximo objetivo é o Mundial na República Tcheca.

Lima com Leandro Sagaz em 2022. Foto: CBR

Lima permanece focada apesar de enfrentar alguns problemas, como a perda da Bolsa Atleta e uma longa lista de assédios morais e institucionais relatados por ela. A esportista experiente afirma que o espaço feminino no remo vem crescendo significativamente, principalmente com a eleição da árbitra sul-americana e internacional Magali Moreira como primeira presidente mulher na história da CBR. Porém, na versão paralímpica do esporte que, ao contrário da olímpica, mulheres e homens disputam em conjunto, os conflitos são notáveis.

“Às vezes a ameaça e a discriminação usa como subterfúgio algum pretexto para discriminar uma pessoa. E geralmente quem é ameaçado é sempre uma mulher, negra, LGBTQIAP+, de população indígena. O remo ainda é um esporte bastante masculino, até há pouco tempo as mulheres não entravam nas garagens. Acaba tendo bastante conflito principalmente daquelas pessoas que sempre dominaram esses espaços de poder e não querem perder os seus privilégios” — explica Josiane Lima.

Mulher e pertencente à comunidade LGBTQIAP+, a catarinense conta que de 2017 até os jogos de Tóquio foi o ciclo mais difícil que enfrentou. Ao longo da trajetória no alto rendimento, ela teve sete companheiros diferentes e com a maioria houve algum tipo de conflito. Lima disse ter se esforçado ao máximo da preparação até a performance na última edição dos Jogos Paralímpicos, mas avalia a participação como ruim. Antes de competir já considerava a medalha impossível com a dupla anterior, porque apesar das habilidades de ambos não havia cooperação. Questões como o ritmo da remada e regulagem do barco eram um impasse dentro da equipe.

“Na seleção tive que solicitar medidas de afastamento de alguns colegas, pedi para que os coordenadores técnicos auxiliassem para mediar e mesmo para me proteger de ataques que sofri relacionados ao meu corpo e até a minha alimentação. Vai ficar como uma história a ser lembrada para sempre, não só as alegrias mas principalmente as dificuldades que eu encontrei e superei” — acrescenta a profissional.

A filha do pescador

Desde o nascimento, Josiane Lima criou uma grande conexão com o mar. O pai é pescador profissional desde sempre e a mãe costumava auxiliar nas pescarias. Segundo a medalhista, na infância sem creche as brincadeiras eram no mar e, quando a mãe passou a trabalhar fora, ela e os irmãos acompanhavam o pai na baitera para o caceio — como chamam a pesca artesanal de camarão em Florianópolis.

Documentário realizado pela ESPN Woman sobre a história de Josiane Lima

A pequena pescadora cresceu e hoje, além de orgulho nacional, se tornou presidente do Conselho de Ética da CBR. A vida de Josiane Lima se transformou com o esporte e para ela as políticas públicas de incentivo ao alto rendimento tiveram um papel essencial. Ela acredita que a Bolsa Atleta foi responsável pela eleição do Brasil como sede dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016, o primeiro da história antiga e moderna a ser realizado na América do Sul.

No atual cargo que assume, ela promove a Campanha Educacional de Enfrentamento a Violência, Antirracismo e Antidopagem CBR-2022, um trabalho em conjunto com o Comitê Olímpico Brasileiro, o Comitê Paralímpico Brasileiro e a Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem. O foco inicial é levar informações para todos envolvidos no universo do remo, dos atletas até às comissões, sobre como combater práticas de violência física e psicológica que acontecem no esporte, com incentivo a cursos on-line de qualificação.

“A nossa pretensão é que a campanha da CBR seja um modelo para outras confederações, não só para o remo. Essa é uma corrente mundial e o Brasil também tem responsabilidade para promover essas melhorias”  — completa Lima.

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