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Um dia, remando sozinha em frente à uma ilha chamada Ilha da Barra aqui em Belém, num misto de muita dor por causa das horas de treino eu olhei para o céu completamente azul e pensei: qual é mesmo o meu propósito?

Eu me preparava pra fazer uma travessia de mais de 60km, de Salvador pra Morro de São Paulo, seria a maior prova da minha vida sem revezamento. A mente girava à mil a cada treino de mais de 5h sozinha pela baía do Guajará. Mas o pensamento era o mesmo: o meu propósito.

Toda vez que alguém me pergunta sobre essas questões, os motivos das competições, de se desafiar tanto e de treinar com vontade eu respondo com outra pergunta: eu estou vivendo pra realizar meus sonhos e você?

Me chamo Larissa, tenho 32 anos e sou mãe de Clarice 😊 . Moramos sozinhas, dividimos uma rotina meio maluca e ela é a pessoa que mais entende os meus sonhos e objetivos. Estar na água me reabastece por inteiro, é muito além que treinar pra competir.

Quando comecei a remar, entre 2016 e 2017, eu não tinha muito objetivo. Gostava de estar na água como hobby, ensinar outras pessoas a remar também era hobby. Hoje a chave virou. Depois de um certo tempo fazendo a mesma coisa (não consigo), tive que mudar e revirar muita coisa aqui dentro para tocar outros objetivos, tipo uma lagarta que quer virar borboleta sabe?

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Há 11 meses eu tomei uma decisão, a de me arriscar nas provas nacionais para me desafiar e poder inspirar outras mulheres, que como eu, também tem dificuldades, são mães, não tem incentivo financeiro e de pouca gente dizendo: EU ESTOU AQUI PARA TE AJUDAR. Não é fácil, eu soube desde o início.

No último brasileiro de v1, a modalidade que eu mais tenho me dedicado nos últimos tempos, na noite véspera da prova eu olhei para o mar e chorei. No dia seguinte estaria numa raia com as melhores remadoras do Brasil, as que eu via nas redes sociais e admirava por terem sido as primeiras, por estarem ali abrindo caminhos. Naquela noite eu me via como uma delas, representando todas as mulheres do norte, as que um dia sonham também poder viver o que eu senti. Nesse dia eu tive a certeza que a minha escolha foi a melhor que eu tomei nos últimos tempos: a de me priorizar como mulher que tem propósito.

Eu abri mão de muita coisa para viver isso, até de um conforto afetivo e financeiro. Eu quis o que faria meu coração vibrar, arrisquei e acertei? A gente vive para tentar acertar não é mesmo? Eu nem quero! Quero só viver com o que eu coloquei aqui e agora como objetivo.

De volta aos treinos na minha baía de água doce, onde libero meus choros e risos, a única certeza que eu tenho é que isso aqui me cura diariamente. Quero poder levar tudo o que tenho aprendido à outras mulheres, para que também sintam o que eu sinto nos últimos tempos: o pulsar de viver para existir e não só para respirar.

Larissa Noguchi, é jornalista, remadora, ativista e mãe de Clarice.

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