Desde que aprendi a ler e a escrever eu amo as palavras, amo descobrir seus significados e seus sentidos. Mas por muitos anos, eu não as usava muito bem para me descrever, principalmente de frente ao espelho. 

Partindo da noção de que ninguém nasce se odiando, provavelmente houve uma primeira vez que criticaram seu corpo. As críticas trazem palavras que marcam muito mais que os elogios. Como se fosse uma tradição, vemos nossas mães insatisfeitas com o corpo pós gravidez, nossas avós lutando contra o envelhecimento, e muitas vezes as próprias vítimas dessa obsessão social com o corpo da mulher, são as que julgam os corpos das outras mulheres e meninas. 

Crescemos com a obrigação de sermos bonitas. Bonitas para uma apresentação na escola, bonitas para encontrar um namorado, bonitas para conseguir um emprego…antes fosse “bonita” uma característica mais democrática, que enxergasse a beleza num sorriso, numa postura, ou até nas palavras que aquela pessoa escreve ou diz. Mas a palavra bonita exige das mulheres padrões como a magreza, que também tem suas variações de décadas em décadas: a magreza com curvas, a magreza chapada, a magreza com tanquinho – e por isso vemos tantas beldades que, apesar de terem corpos dentro do padrão de beleza, continuam abusando de filtros e photoshop em suas fotos e vídeos.

imagem: reprodução/whattpad

A insatisfação corporal não terá fim enquanto você não mudar o jeito como se enxerga. Na verdade, eu diria que primeiro mudar o jeito como você se descreve poderá te ajudar a mudar o jeito como se vê. Primeiro que ficar falando sozinha ou com alguém sobre a necessidade de emagrecer ou de mudar eu corpo só traz mais ansiedade, muitas vezes acompanhada de tristeza e frustração. Ao invés de te motivar a novos hábitos de vida, você terá que carregar mais um peso na sua vida, que não é o da balança.

Coincidentemente no dia que escrevi esse texto, descobri um termo científico chamado fat talk, que seria conversa sobre a gordura e explica como esse tipo de assunto prejudica mais do que motiva quem quer melhorar a saúde e a relação com o corpo. 

Então, como faço para me descrever se o que eu vejo no espelho eu não gosto? Não se descreva ou somente descreva o que gosta. Não existe uma receita óbvia para a autoestima. Assim como todo exercício físico precisa ser praticado com constância para ter resultado, parar de se xingar na frente do espelho também. Perceba que seu corpo não é uma imagem, não é um item de decoração. Vai além do gostar ou não gostar: é existência e vida, é sobrevivência e lar. 

As palavras tem poder e elas podem te motivar ou desmotivar. Então a próxima vez que vier na sua cabeça uma crítica sobre seu corpo, saia do automático, olhe para o que te agrada e sinta-se em paz.

Topa esse desafio? 

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