Eu comecei a nadar com 6 anos de idade, foi um pedido para minha mãe me matricular no clube. Assim que chegamos lá, ela disse ao professor: “Olha, ela não sabe nadar”. Prontamente eu respondi: “Sei sim!”. Fui lá, troquei de roupa e sem pensar duas vezes pulei na água e já dei minhas primeiras braçadas. Não era só diversão, era algo muito maior, que me atraia, me extasiava… não sei explicar, mas para mim era o melhor lugar do mundo!

Não demorou muito, participei dos meus primeiros festivais e campeonatos. Com 7 para 8 anos de idade o Major Passos, treinador da equipe do Círculo Militar de Campinas, me convidou para fazer parte da sua equipe de natação. Minha alegria de estar treinando e competindo só aumentou.

Imagem: reprodução/arquivo pessoa

Sei que na infância é muito difícil estabelecer o que a gente vai ser quando crescer e até para os pais é um pouco complicado criar alguma expectativa. Mas, meus pais sempre me apoiaram muito desde o começo e se eu tinha certeza de alguma coisa é que a natação era o caminho que eu iria seguir pro resto da minha vida. Me formei em educação física para continuar trabalhando no meio aquático.

Dos 10 aos 13 anos eu nadava provas de fundo de 400m e 800m livre, onde tive uma base de treinos muito boa na natação. Com 14 anos mudei para o Tênis Clube de Campinas, comecei a treinar com o Cabral e a nadar as provas de 50m e 100m livre. Explosão, adrenalina. Esse ritmo forte me seguiu até a idade adulta, com ótimos resultados de campeã brasileira e seleção paulista. Já na categoria master, fui campeã pan-americana, sul-americana, brasileira e paulista, chegando até ao Top 10 do FINA Master nos anos de 2016 e 2019.

Em 2019, estive na inauguração do Centro Aquático Samir Barel em Campinas. Conhecia o Samir de vista, em algumas competições regionais. O novo espaço era totalmente dedicado para melhoria da performance de nadadores amadores e profissionais. Um verdadeiro sonho para quem é apaixonado por natação como eu. Para a minha sorte, a lei da atração não falha e um tempo depois comecei a trabalhar com essa equipe extremamente apaixonada por água, seja ela doce ou salgada.

Para quem não sabe, o Samir Barel é um dos principais fomentadores da maratona aquática no Brasil. Já nadou Canal da Mancha, 88 quilômetros no Rio Paraná na Argentina, participou do Circuito Mundial de Ultras e tem um projeto chamado Desafios Aquaman, que abrange de iniciantes até os mais experientes nas águas abertas. Por isso, vários alunos do Centro Aquático e da assessoria dele tinham como objetivo encarar travessias oceânicas, um segmento da natação que eu não tinha contato, mas que, logo de cara, me intrigou. Imagina, nadar por 5, 6 até 10 horas uma prova??!! Para mim eram todos loucos (risos)…

Mas sabe aquele ditado: não cospe para cima, que cai na testa? Me pegou de jeito… Justamente por conta desse nicho de maratonistas aquáticos, o Samir me abriu as portas para realizar um trabalho específico de preparação física com alguns atletas, buscando deixá-los mais capacitados para esses desafios em águas abertas. Porém, para entender melhor quais eram as dificuldades desses nadadores, como eu poderia ajudá-los a ter um bom desempenho, veio uma provocação do Samir: Carol, por que você não nada uma ultramaratona aquática e vê como é? Um amigo dele, o Renato Ribeiro, estava iniciando um projeto em Ilha Grande, no Rio de Janeiro. Eu e o Samir decidimos que os 37km era uma oportunidade de sentir na pele tudo o que se passa durante a periodização e a prova. Nado todo dia, adoro treinar, então, bora lá!

Tive que aprender a “treinar” novamente. Nadar em águas abertas não exige apenas uma adaptação técnica de nado. Na natureza, o ambiente é imprevisível e incontrolável. Corrente marítima, temperatura da água, condições climáticas (sol, chuva, vento), tudo isso interfere diretamente na prática da natação. Por isso, além dos treinos em piscina, fizemos simulados em represa e mar, treinos em piscina aberta e sem aquecimento para acostumar-se com a água mais fria, uma característica do local da prova. Também acabei focando em treinos de resistência e força em geral, além de trabalhos de mobilidade articular e estabilidade de tronco, já pensando em como seria por mais de 10 horas.

Se todas essas mudanças já não eram suficientes, veio uma pandemia no meio do caminho. O que atrapalhou um pouco o planejamento, mas depois conseguimos retomar e fazer os ajustes necessários na periodização. Fiz vários treinos sozinha, apesar da natação ser um esporte individual, ter alguém treinando junto é uma forma de estímulo. Porém, na hora da prova, seria somente eu mesmo, então era bom para preparar minha mente para o que viria.

Minha maior dificuldade na preparação, na verdade, foi lidar com a frustração nas médias de treino. Como velocista, você está acostumado a nadar em alta intensidade com um intervalo de tempo maior de descanso, o que ajuda o corpo a se recompor para uma próxima série ou prova. Já para uma prova de endurance, você deve nadar em baixa intensidade, com intervalos mais curtos entre uma série e outra. Isso faz com que a média de tempo suba para executar a mesma metragem. No início, isso me deixava meio brava, eu tinha como instinto querer baixar cada vez mais os tempos e agora a ideia era controlar mais o ritmo, força e velocidade.

Dia 3 de julho de 2021. Começamos a nadar por volta de 6 horas da manhã. Muita gente pergunta: Carol, o que passa pela sua cabeça nesse tempo todo? Tudo! Eu estava bem concentrada, acabava focando no estilo do nado, na execução dos movimentos, contava braçada, contava hidratação… Pensava na minha família, meus amigos, todo o apoio que recebi para chegar até ali… A superação maior foi lidar com a temperatura da água. Sou bem friorenta, a temperatura da água estava 22ºC, suportei bem durante a prova, mas no fim do dia, com a noite caindo e a temperatura ambiente também, já estava ficando desconfortável, ainda mais porque eu tenho um baixo percentual de gordura, minha reserva de calor era bem limitada. Mas aí o Samir dizia: Carol, se você não está batendo os dentes, então, segue em frente! E assim eu fiz… No finalzinho só pensava em terminar que depois iria tomar um banho quente.

fotografia: Daniel Righetti

Missão dada, missão cumprida! Depois de 12 horas cravado no relógio (12h00min32s), conclui o percurso entre as praias de Meros e Abraãozinho, quase metade da volta completa a Ilha Grande (85km). Loucura! Sim! Faria de novo? Com certeza!! Fique super feliz, não só de ter conseguido, mas por todo aprendizado dentro da minha preparação.

Sair da zona de conforto não é fácil, mas quando a gente ama o que faz, esse processo é muito mais tranquilo e prazeroso. A migração da piscina para águas abertas tem sido cada dia mais comum para atletas amadores, incentivados principalmente pelo aumento da prática de esportes outdoor, como triathlon, corrida de rua… Claro que ser atleta amadora e profissional de educação física, ajudou na transição, mas isso não é o mais importante! Tanto para vencer uma prova de 50m como para finalizar uma ultramaratona é preciso foco no seu objetivo e realizar um planejamento de treinos bem estruturado, dentro das suas necessidades e limitações.

Eu acredito muito que o resultado final é uma consequência de todo o processo que você vivenciou. E eu sempre falo para os meus alunos, não adianta sair de um patamar e pular vários degraus pra chegar no topo. Um bom condicionamento físico é uma conquista diária que depende de regularidade, constância, disciplina. Isso vale como exemplo para diversas coisas na vida.

Ana Carolina Morelli, 31 anos, nascida e criada em Campinas, professora de natação, preparadora física e pronta mergulhar de cabeça quando o assunto é natação.

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